O Sínodo de Dort: Uma Vergonha na História do Protestantismo

 Este texto é a transcrição integral traduzida do vídeo "Documentary On The Synod Of Dort: a Disgrace In The History Of Protestantism" disponibilizado no Youtube neste link. As referências bibliográficas para as informações citadas estão no vídeo original.

"Entre 1618 e 1619, em uma cidade holandesa chamada Dordrecht, ocorreu um dos episódios mais sombrios da história do protestantismo. O que começou como um debate teológico terminou como um julgamento político, no qual o poder religioso se aliou ao poder militar para esmagar toda dissidência. Os remonstrantes, seguidores de Jacobus Arminius, foram condenados como hereges, expulsos, presos, exilados e até executados. O Sínodo de Dordrecht não foi apenas um concílio eclesiástico; foi uma espécie de expurgo disfarçado de ortodoxia.

O representante da delegação inglesa, John Hales, testemunhou tudo. Ele chegou acreditando na causa calvinista, mas saiu profundamente desiludido. O que presenciou o levou a abandonar o calvinismo para sempre. O teólogo luterano Nicolas Hunnius, contemporâneo do sínodo, comparou o evento ao Concílio de Trento. Já o historiador Nappert o chamou diretamente de uma “inquisição reformada”. Para compreender o que ocorreu ali, é necessário considerar o contexto histórico.

Na época, Igreja e Estado estavam intimamente ligados, e o conflito ia muito além da teologia, alcançando a esfera política e social. O sínodo aconteceu enquanto os Países Baixos lutavam há muitos anos contra a Espanha católica, conflito que causara muitas mortes nas províncias que haviam aderido à Reforma protestante. Guilherme, o Silencioso, príncipe de Orange, liderava a resistência holandesa. Após sua morte, seu filho, o príncipe Maurício, e o grande pensionário da província da Holanda, Johan van Oldenbarnevelt, tornaram-se seus sucessores, representando visões políticas diferentes.

Ambos acabaram ligados a outras duas figuras que representavam o mesmo tipo de divisão no campo teológico. De um lado estava Franciscus Gomarus, o principal defensor da doutrina calvinista da predestinação, especialmente na forma chamada supralapsarianismo. Do outro estava Jacó Armínio, o principal crítico dessa doutrina. Após a morte de Armínio, seus discípulos mais importantes, entre eles Simon Episcopius e Johannes Uytenbogaert, publicaram um protesto chamado Remonstrância, documento do qual vem o nome “remonstrantes”, dado aos seguidores de Armínio.

Essa declaração era composta de cinco artigos que se afastavam claramente do calvinismo. Nela se negava que a graça fosse irresistível, afirmava-se que a predestinação se baseava na presciência de Deus e defendia-se que Cristo morreu por todos os homens, e não apenas pelos eleitos, ainda que a salvação fosse concedida apenas àqueles que cressem.

O estudioso arminiano Roger Olson observa que entre os arminianos havia estadistas e líderes políticos holandeses que haviam ajudado a libertar os Países Baixos da Espanha. Seus inimigos, porém, os acusavam de apoiar secretamente os jesuítas e a teologia católica romana e de simpatizar com a Espanha, simplesmente porque concordavam com Armínio contra Gomarus na questão da predestinação. Não há qualquer evidência de que fossem culpados dessas acusações políticas. Mesmo assim, eclodiram tumultos em várias cidades holandesas, com sermões contra os remonstrantes e panfletos que os difamavam como hereges e traidores.

Por fim, o principal poder político dos Países Baixos, o príncipe Maurício, entrou na disputa ao lado dos calvinistas contra os remonstrantes. Foi nesse contexto turbulento que se reuniu o Sínodo de Dort, de novembro de 1618 a janeiro de 1619, com mais de cem delegados, incluindo representantes da Inglaterra, Escócia, França e Suíça. Johannes Bogerman, um pregador calvinista extremamente rigoroso, que havia defendido a pena de morte para heresia, foi eleito presidente.

Segundo o próprio site oficial remonstrante, os remonstrantes não participaram do sínodo como membros plenos, mas como réus. Não lhes foi permitido sentar-se entre os demais participantes; tiveram de ocupar uma mesa no centro da sala de reuniões, sinalizando simbolicamente que estavam em posição desigual. O doutor em teologia Jan Rools afirma que os remonstrantes não puderam enviar representantes próprios ao sínodo, que as autoridades seculares tinham o direito de confirmar decisões teológicas sem exame adequado e que os arminianos foram proibidos de deixar Dordrecht sem permissão, mesmo após serem expulsos do sínodo.

O teólogo luterano Nicolas Hunnius, contemporâneo do evento, publicou em 1626 uma obra chamada Dioskepsis Theologica, na qual afirma que o sínodo não foi livre nem legítimo. Ele argumenta isso por cinco razões: pelas pessoas envolvidas, pelas circunstâncias, pelo processo, pelos limites impostos e pelas consequências. Hunnius observa que o sínodo decretou que apenas aqueles que professassem a religião reformada seriam admitidos como avaliadores e juízes. Os arminianos tiveram de comparecer a uma assembleia na qual não eram tolerados como participantes plenos, e o próprio sínodo negava ser a parte oposta no debate.

Hunnius então questiona: quem poderiam ser os adversários dos remonstrantes, senão justamente aqueles que ocupavam os principais cargos no sínodo? Ele afirma que, segundo os decretos e atas, tudo foi feito com preconceito, não menos do que no Concílio de Trento. Portanto, conclui que o sínodo realizado em Dort não foi, de fato, livre nem legítimo.

Ele também aponta que as confissões de fé de ambos os lados não foram apresentadas para um diálogo real. Os arminianos nunca puderam expor suas opiniões sobre as doutrinas do grupo oposto. Além disso, os dirigentes do sínodo favoreciam claramente o mesmo lado, sendo o principal exemplo o próprio Bogerman, presidente do concílio e inimigo declarado dos remonstrantes.

As crenças de ambas as partes não foram comparadas, e os arminianos sequer puderam fazê-lo. Os supostos erros da doutrina remonstrante não foram explicados adequadamente, nem lhes foi concedida oportunidade de defender sua posição e apresentar argumentos. Por fim, os acusados foram submetidos à repressão do poder secular, pois o sínodo distorceu muitas das declarações feitas por eles, de modo a torná-los impopulares e apresentá-los como fomentadores de rebelião contra as autoridades civis.

Hunnius conclui afirmando que as manobras dos calvinistas permitiram que o lobo entrasse no aprisco disfarçado de ovelha, sob o pretexto de buscar consenso sobre os fundamentos da fé — algo que, segundo ele, enganou muitos, deixou outros em dúvida e perturbou ainda mais pessoas.

Nos registros do sínodo preservados nas obras de Armínio, encontra-se também um episódio marcante. Antes de ser expulso do sínodo, Simon Episcopius fez um discurso cuja reação foi registrada. A graça, a força e a energia com que falou impressionaram tanto os presentes que vários deles se emocionaram até as lágrimas, inclusive alguns deputados do Estado — algo que desagradou profundamente ao presidente Johannes Bogerman. Como os arminianos não aceitaram as ideias calvinistas, foram expulsos do sínodo com as palavras: “Nós os dispensamos. Saiam.”

Essas palavras ecoaram em Dordrecht no dia 14 de janeiro de 1619, pronunciadas por Bogerman, que ainda aplaudiu ao final. O historiador da Igreja Nappert descreveu o episódio como o repugnante espetáculo de uma “inquisição reformada” em sua história do protestantismo nos Países Baixos. Segundo ele, o que o sínodo fez não foi muito diferente do que havia feito a Inquisição romana ou do que Calvino fizera com Serveto.

Curiosamente, os próprios calvinistas também entraram em conflito entre si durante o sínodo. Em certo momento, Franciscus Gomarus defendeu com veemência o supralapsarianismo e atacou seus opositores com tanta força que o representante de Bremen, Matias Martinius, protestou. Outro professor, Antonius Thysius, ousou desafiar Gomarus, mas um colega seu começou a gritar tão alto que ninguém conseguia entender o que estava sendo dito, e o próprio Gomarus ficou tão irritado que acabou incapaz de falar.

Um relato sobre as impressões de John Hales mostra sua mudança de postura, passando do entusiasmo inicial ao desencanto. A decisão de impedir que os arminianos participassem como parte legítima e sua posterior expulsão no início de 1619 o deixaram profundamente descontente com o sínodo.

Em uma carta de 25 de janeiro de 1619 escrita a partir de Dort, Hales registrou um incidente curioso. Durante uma discussão sobre a extensão da expiação, Matias Martinius apresentou um discurso ao sínodo. Em resposta, Gomarus levantou-se e declarou em latim: “Ego hanc rem in me recipio”, assumindo pessoalmente a questão e desafiando Martinius para um duelo. Martinius suportou o insulto com calma e, após algumas palavras, a situação pareceu se acalmar graças à intervenção do presidente. Como de costume, a sessão terminou com oração. Contudo, nem mesmo a devoção acalmou Gomarus, que logo após a oração renovou seu desafio para um combate com Martinius. Ainda assim, naquela noite os dois se separaram sem violência.

Depois de participar do sínodo, John Hales escreveu: “Ali me despedi de João Calvino, pois, depois de tudo o que experimentei naquele lugar, fiquei desiludido com o calvinismo.”

Após o fim do sínodo, os cultos remonstrantes foram proibidos. O perigo era real. Em 1619, um dos peregrinos, James Chilton, foi cercado por jovens em Leiden que o apedrejaram, deixando-o ferido e inconsciente na rua, por acreditarem erroneamente que ele vinha de uma reunião remonstrante.

Como era de se esperar, apesar das eloquentes defesas do arminianismo apresentadas por seus principais representantes, o sínodo concluiu condenando todos os líderes remonstrantes como hereges. Pelo menos duzentos foram removidos de cargos eclesiásticos e públicos, cerca de oitenta foram exilados ou presos, e alguns sofreram punições ainda mais severas. O estadista e filósofo Hugo Grotius foi lançado em uma masmorra. Outro estadista, Johan van Oldenbarnevelt, foi publicamente decapitado.

Um historiador moderno da controvérsia conclui que o tratamento dado pelo príncipe Maurício aos estadistas arminianos só pode ser considerado um dos grandes crimes da história."


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